O Confinado 

O Confinado é um projeto que visa estudar o processo criativo de um personagem, na perspectiva do criador. 

Aqui ha um personagem ao qual foi dado a capacidade de pensas por si só.

 

 

  O homem analisava aquele pequeno caracol que se movia ao redor da planta. O molusco rastejava lentamente e cada movimento parecia uma eternidade. Não havia mais nada naquele pequeno canto...Talvez aquele canto nem existisse, talvez nada ali existisse, mas aqueles olhos podiam ver e aquele corpo podia sentir.

 

  O homem estava jogado no nada, por anos caminhava sobre aqueles pés, vagava preso em um mundo desordenado, dentro de uma mente criativa, onde o possível e o impossível andavam lado a lado. Onde o real e o surreal se cruzavam em paz ou guerra. Sua consciência estava limitada, adormecida como um filhote indefeso. Mecânica, agia por simples impulsos físicos, comandado por aquele intitulado Ele, o dono daquela mente perturbada.

O dono do mundo ao qual estava confinado.

 

  O corpo, amedrontado, já não olhava mais o caracol, mas de alguma forma aquele pequeno ser comandava os segundos e as horas. A cada movimento um raciocínio surgia. Pensamentos livres como nuvens ao vento. Nuvens negras de uma tempestade que se iniciava na pequena mente que acabara de nascer.

Os olhos encaravam as mãos que se moviam como lembranças flutuantes.

 

– Sinto-me confinado... - E a mente se libertava.

As mãos se encontravam em fúria, nunca havia sentido aquilo, nunca havia sentido aquela pele, era macia... era fria.

-Essa pele não me pertence, mas posso senti-la.

 

  O homem tocava o nada, logo podia senti-lo... Por um instante ouviu o nada lhe ensinar a pensar, mas podia ser só o vento soprando as folhas lá na rua.

-Mas de onde essa rua? - Se perguntava -De onde esse vento? E as folhas? E eu?... Aqueles olhos se moviam desconfiados, amedrontados.

 

 - Sinto... Acho que... Ele me permitiu sentir.

Tocava seu corpo, curioso levantou e caminhou sem entender o que estava fazendo. Estava se conhecendo. Suas mãos aproximaram-se da face. E o nada se fez presente novamente.

 

- Rastejante, contraído, preso em uma mente livre.

 

  Um movimento do pequeno molusco no pé da planta. Um segundo se fez e o homem pairou no tempo, não havia mais som, apenas aquela pele, o coração acelerou, seus músculos contraíram, e a mente transbordou em choque.

 

-Habito uma mente frágil... e na fragilidade me faço existir.– a respiração tornava-se forte e as mãos arrastavam-se na face transtornada.

 

-Mas... eu não existo.
                                                 

 

Vergílio Lopes.